terça-feira, 19 de agosto de 2014

GPS da viatura que levou Geovane pode ter sido manipulado, diz secretário

Se comprovada a participação dos agentes no sumiço de Geovane, eles poderão ser expulsos da corporação
  
Corpo de Geovane estava no IML desde o dia 5
(Foto: Reprodução)
O Correio teve acesso aos dados de GPS que mostram o deslocamento da viatura minutos antes e depois da abordagem a Geovane Mascarenhas de Santana, 22 anos. O jovem desapareceu após abordagem da Polícia Militar na Calçada.
Às 16h57, os PMs chegaram à Rua Leão XIII, local da abordagem. A viatura permaneceu no local até as 17h02, quando seguiu pelas ruas Nilo Peçanha e Padre João de Azevedo, retornando para a Avenida Afrânio Peixoto. Os dados vão até a 0h do dia 3 de agosto, quando o GPS teria parado de funcionar. 
Segundo o secretário Maurício Barbosa existe a possibilidade de que o aparelho tenha sido manipulado para não registrar os locais por onde a viatura passou horas após a abordagem.

“Por experiência, sabemos que policiais envolvidos com crimes encontram mecanismos de inutilizar tanto o GPS quanto a câmera interna. Mas seria uma coincidência muito ruim contra eles que diante de tantas provas o GPS não esteja funcionando”, disse.

Se comprovada a participação dos agentes no sumiço de Geovane, eles poderão  ser expulsos da corporação. “Caso isso seja confirmado, iremos retirá-los o mais rápido possível das fileiras da nossa corporação policial militar que tem na sua ampla maioria excelentes profissionais”, enfatizou o secretário.
Um exame de DNA confirmou, na manhã desta terça-feira (19), que o corpo que estava no Instituto Médico Legal (IML), em Salvador, pertence a Geovane Mascarenhas de Santana, 22 anos. O jovem desapareceu no dia 2 de agosto após uma abordagem violenta de três policiais militares na Calçada. Segundo a polícia, o corpo de Geovane está no IML desde o dia 5 de agosto.
A Secretaria de Segurança Pública informou que o exame de DNA foi feito a partir de um pedaço de tecido da mão, que foi comparado com parte do tecido do corpo e da cabeça. Como o material genético encontrado foi o mesmo, trata-se do corpo de Geovane. A SSP já havia informado que, por conta do resultado positivo, não será necessário amostra de DNA de parentes.

Porém, após o pais de Geovane, Jurandy Silva de Santana, 40 anos, ter sido ouvido na Defensoria, o órgão decidiu que pedirá ao Departamento de Polícia Técnica (DPT) que o exame de identificação do corpo no IML, apontado pela SSP como de Geovane, seja feito utilizando amostras de DNA de parentes do rapaz

Corpo esquartejado
Apenas uma mão encontrada num terreno baldio em Campinas de Pirajá, no último dia 4, tinha sido identificada como sendo de Geovane. A afirmação veio do resultado do exame de papiloscopia (impressões digitais).

A tatuagem com o nome de Jurandy, na costela esquerda de Geovane, é a marca que serve como base para que o pai tenha certeza na identificação. O corpo sem mãos e sem cabeça, ao qual o Jurandy se refere, também está carbonizado e foi localizado no Parque São Bartolomeu na madrugada do dia 3.

"De sábado para cá, tenho pensando mais nas circunstâncias e tenho quase certeza que é meu filho. Acho que 90% de chance de ser ele. A minha dúvida é em um detalhe: a tatuagem. Uma pessoa do IML me falou que tiraram também a tatuagem dele”, disse Jurandy. 

A assessoria da SSP reforçou que, como havia sido dito pelo titular da pasta, Maurício Barbosa, na semana passada, como o corpo está carbonizado, seria impossível identificar a vítima por uma tatuagem ou uma lesão supostamente causada para retirá-la.

Agora, o corpo de Geovane deve ser levado para o município de Serra Preta, próximo a Feira de Santana, para ser devidamente enterrado.

Suspeitos

Os três policiais militares envolvidos no desaparecimento de Geovane estão presos: o subtenente Cláudio Bonfim Borges, comandante da guarnição, e os soldados Jailson Gomes de Oliveira e Jesimiel da Silva Resende — todos lotados na Rondesp da Baía de Todos os Santos. 

Segundo a polícia, Jailson e Jasimiel já respondem a processos judiciais nas 1ª e 2ª Varas de Justiça por auto de resistência — quando agentes de segurança matam em alegados confrontos. Os  dois estão lotados na PM há pelo menos 11 anos.

Já  Cláudio, policial há 21 anos, é o  único que não tem o nome associado a ações judiciais desse tipo. Os três ficarão detidos no Batalhão de Polícia de Choque, em Lauro de Freitas. 

Segundo o advogado de Cláudio, Luciano Pontes, o policial negou envolvimento no sumiço de Geovane. “Ele contou que, depois da abordagem, Geovane foi liberado próximo ao (Atacadão) Recôncavo. A viatura foi embora e Geovane seguiu com a moto”, relatou. 

A assessoria da Polícia Civil informou que a prisão preventiva permitirá que as investigações sejam  aprofundadas. Além das imagens registradas pelas câmeras de segurança - que mostram o momento da abordagem - depoimentos teriam servido para que a polícia pedisse a prisão preventiva.

Medo
A Secretaria da Justiça, Cidadania e Direito Humanos do Estado (SJCDH) estuda incluir a família do comerciante Jurandy no Programa de Proteção a Testemunhas (Provita). “No caso dele (Jurandy), os indicativos são de que há necessidade (de proteção). Embora eu não saiba se ele sofreu algum tipo de ameaça, precisamos ter cuidado. Não precisa chegar à ameaça mais explícita”, explicou o superintendente de Direitos Humanos da secretaria, Ailton Ferreira.
Jurandy chega na Defensoria com Diva, da ONG Tortura Nunca Mais
(Foto: Betto Jr)
No final de semana, Jurandy disse ao CORREIO que planejava pedir proteção para a família. O superintendente da SJCDH esteve no Quartel dos Aflitos, sede do Comando da Polícia Militar, na última sexta-feira, e já está em contato com o Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa (DHPP), que investiga o caso. “Estamos à disposição. Podemos até tirar a família do estado”, disse Ferreira.
Depois que a família for entrevistada, o que deve acontecer ainda esta semana, o comitê do Provita deve se reunir e consultar o Ministério Público do Estado (MP-BA). Comprovada a necessidade, a família pode ser deslocada para outro lugar — que não seria divulgado — em, no máximo, uma semana.

Na manhã de ontem, Jurandy esteve com o presidente e a vice-presidente da ONG Tortura Nunca Mais, Joviniano Neto e Diva Santana, respectivamente, na sede da Defensoria Pública do Estado (DPE), para analisar a necessidade de solicitar proteção.


fonte: Correio da Bahia