segunda-feira, 27 de maio de 2013



Neymar deixa o Brasil por falta de organização, não de dinheiro




Neymar, atacante da seleção brasileira (Foto: EFE)
Era julho de 2011 quando a revista The Economist publicava uma reportagem sobre o futebol brasileiro com a teoria de que, após exportar tantos jogadores, o Brasil começava a reter talentos com o fortalecimento da economia do país e das finanças dos clubes. A permanência de Neymar, após a recusa do Santos à oferta milionária do Chelsea, era o principal argumento. “Ele optou por ficar em casa e ganhar dinheiro ao cobrar de anunciantes para aparecer com seu moicano nos outdoors, em vez de buscar a fortuna na Europa”. Agora, com o craque a caminho do Barcelona, pode parecer que a teoria desmoronou. Não é o caso
Neymar não deixa o Brasil atrás do dinheiro do gigante espanhol, diferentemente de muitos dos brasileiros que migraram para a Europa nas últimas décadas. Segundo a imprensa espanhola, o rapaz deve ganhar € 7 milhões anuais do Barcelona por cinco anos. R$ 18,5 milhões, na cotação atual, mais o que irá arrecadar com publicidade, maior fonte de receita do atleta. Não é muito mais do que os R$ 3 milhões mensais que recebe no Santos com a soma de salário e patrocínios.
O que faltou a Neymar no Brasil foi organização.
“Se a gente não conseguiu resistir a mais um assédio, aconteceu muito mais pela questão do ambiente que a gente vive do que pela parte financeira para o atleta. O Neymar não vai para ganhar mais dinheiro. Ele vai para jogar outros tipos de competições, para atuar entre outros atletas. O Santos provou que é possível manter um ídolo. Mas provou também que, com a estrutura que o nosso futebol tem, uma situação como esta, uma conquista assim, é efêmera”, avalia Armênio Neto, gerente de marketing do Santos, responsável por mantê-lo no país com contratos de publicidade.

Neymar, atacante da seleção brasileira, na final dos Jogos Olímpicos de Londres (Foto: Getty Images)
A comparação mais óbvia, que melhor expõe a diferença entre a organização do futebol europeu e a do sul-americano, é entre a Liga dos Campeões e a Copa Libertadores. A principal competição europeia terminou no último sábado, com vitória do Bayern de Munique sobre o Borussia Dortmund em um estádio Wembley lotado de torcedores das duas equipes, com ações de marketing da Heineken que fazem outras empresas babar e um jogo de futebol que fez até pessoas no Brasil se reunirem em bares para acompanhar. “E olha que os dois times são alemães, de uma escola de cintura dura, e foi um jogão”, diz Neto.
Na Libertadores, Ronaldinho Gaúcho vai ao México enfrentar o Tijuana em um campo de gramado sintético. Resultado: jogou boa parte da partida com o olho esquerdo irritado, por causa da borracha utilizada no gramado artificial. Quando um jogador vai bater escanteio, tem de ser protegido por escudos de policiais contra itens que são atirados no campo pela torcida. Brigas, então, são corriqueiras. A final da Copa Sul-Americana do ano passado, quando os argentinos do Tigres não voltaram ao campo depois do intervalo para jogar com o São Paulo e alegaram ter sido agredidos por seguranças, é um dos exemplos mais recentes de bagunça. 
Uma das prováveis soluções para este cenário é a reconstrução de estádios brasileiros, incentivada pela Copa do Mundo de 2014. Com arenas modernas, mais confortáveis e melhor planejadas, a expectativa do dirigente santista é que diminuam a violência e a desorganização. Iniciativas como a da Ambev, de montar programas de sócios-torcedores nos clubes com mais benefícios, também devem ajudar a cadastrar torcedores e a mudar a cultura brasileira, na opinião dele. Mas ainda vai levar cinco ou dez anos para que, como previu a The Economist, o Brasil retenha seus talentos.
Só o dinheiro não basta.


fonte: época negócios