terça-feira, 7 de maio de 2013


Criminalidade infantil: com medo da morte, 


menores desistem do tráfico

W. atuou durante quatro anos no tráfico
W. atuou durante quatro anos no tráfico Foto: Bruno Gonzalez / Extra

Aos 12 anos, W. trocou a pipa e a bola de futebol pelas armas e radiotransmissores. Nascido e criado no Morro dos Prazeres, em Santa Teresa, o jovem, ambicioso, abriu mão da infância para fazer parte do exército do tráfico. O medo de ser morto por policiais, ou até mesmo por seus antigos comparsas, no entanto, fez com que largasse a vida dedicada às drogas.
— É muito olho grande. Tive medo de quererem me apagar, aí entreguei tudo — conta W.
Capturado pela polícia apenas uma vez, o adolescente garante que hoje, aos 16 anos, não voltará ao crime. Hoje, o índice de reincidência dos menores infratores no Rio é de 70%.
Numa rotina de desespero, a mãe de W. costumava rodar o Morro dos Prazeres todos os dias para procurá-lo. Sabia que havia algo de errado. A certeza veio no aniversário de 14 anos do filho, quando a família esperava, na casa de uma tia, a sua chegada. Preocupada, a mãe saiu em busca do jovem.
— Dei de cara com ele armado, com um radinho na mão e uma mochila com drogas. Fiquei sem chão. Chorei muito. Mesmo assim, ele continuou no ‘movimento’. Eu não tinha mais controle.
Radiografia do crime
Radiografia do crime Foto: Kamilla Pavão
Sonho de ser militar
W. não passava necessidades. Entrou no tráfico porque queria dinheiro para gastar com roupas de grifes, como Oakley e Hurley. E também em bebidas, nos bailes funk. Agora, repete que não pensa mais nisto, como se quisesse convencer a si mesmo.
— Tenho o sonho de seguir carreira militar. Quero entrar no Exército. Só preciso mesmo de uma oportunidade — diz o adolescente.
Para Jaílson de Souza Silva, do Observatório de Favelas, em pouco tempo, o glamour que atrai os jovens para o tráfico dá lugar ao medo.
— O tráfico de drogas envolve violência e grandes disputas. Os garotos começam a sentir isto e sentem vontade de abandonar a vida criminosa. É uma realidade dura, e eles vão percebendo isso. Por isso, há grande rotatividade.
‘Não aguento mais este sofrimento’
A busca informações sobre filho na delegacia. Foto Bruno Gonzalez / Extra
A busca informações sobre filho na delegacia. Foto Bruno Gonzalez / Extra Foto: Bruno Gonzalez / EXTRA
A empregada doméstica A. já perdeu as contas de quantas vezes saiu em busca do filho de 12 anos. Moradora de Antares, ela admite que o filho já foi apreendido após ser flagrado roubando e vendendo drogas.
– Já tem uma semana que não sei onde está meu filho. Não é a primeira vez que ele some, e eu, sempre, fico igual a uma doida atrás dele. Vim na delegacia (DPCA), mas aqui ele não está. Agora, me pediram pra procurar neste lugar aqui (Vara da Infância e Juventude). Já não aguento mais este sofrimento. Uma vez, ameacei prender ele em casa para ver se parava de fazer besteiras, mas não tive coragem. É só eu sair para trabalhar que ele vai para a rua aprontar. Meu filho precisava era de um pai presente para puxar a orelha dele.



fonte: jornal extra